sábado, 4 de abril de 2009

MEMORIAL: Minha trajetória como leitora
Memórias de uma leitora apaixonada

“Na maioria das vezes, lembrar não é reviver, mas
refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias
de hoje, as experiências do passado.” Ecléa Bosi

Debruçando-me sobre as lembranças de um passado remoto, lanço um olhar sensível e retrospectivo da minha trajetória enquanto leitora e percebo-me em contínua formação.
Minha memória afetiva me remonta à tenra idade, entre dois ou três anos, época em que ouvia _em disco de vinil_ repetidas vezes durante o dia , os clássicos Chapeuzinho Vermelho,A Bela Adormecida,Os Três Porquinhos, O Patinho Feio, Branca de Neve, entre tantas outras ; eram histórias que povoavam meu imaginário e me fascinavam...À noite, queria as mesmas histórias, só que agora lidas por meu pai ou minha mãe naqueles livros de belíssimas ilustrações e capas que mudavam de cor à medida que eram movidas.Olhos atentos, ouvia extasiada e, se algum aspecto da história fosse omitido ou acrescentado eu interrompia com firmeza e dizia que não era daquele jeito , continuando a contar a história na íntegra.
Assim, a leitura fez-se presente em minha vida desde muito cedo, incentivada principalmente por meu pai, um leitor por excelência. Ele sempre narrava histórias, as clássicas e outras tantas, que não as dos livros convencionais, mas que me encantavam com a mesma intensidade.Meu ambiente familiar, embora simples, era estimulante, havia sempre livros diversos de literatura , gibis e revistas que eram manuseados por mim e lidos para mim.
Algum tempo à frente, mais precisamente aos cinco anos de idade, fui alfabetizada numa escolinha particular por “Tia” Deílda e, toda orgulhosa, lia meu “ABC” à noite para meus pais que, encantados com aquela “proeza”, reforçavam esse despertar para a leitura estimulando-me a ler outros livros infantis que não a “cartilha”.
Mais tarde, já no Ensino Fundamental II,alguns títulos foram sendo impostos pela escola como leituras obrigatórias.Nem todos me atraíam, talvez pelo mal encaminhamento da escola e por serem, não raras vezes, descontextualizados da realidade daquele momento.Porém eu continuava a ler com voracidade e prazer outros livros, que não os “ sugeridos” pela escola.Devorei,na 5ª. série, O pequeno Príncipe, Poliana Menina ,Poliana Moça, Meu pé de laranja lima, Robinson Crusoé,A volta ao mundo em 80 dias e outros tantos que me interessavam...
Ao lado da minha vivência leitora, foi-se delineando uma inclinação para escrita.Adorava inventar histórias com personagens incríveis ,mas não tinha coragem de mostrar para alguém ler.Às vezes, acordava no meio da noite cheia de idéias e sentia necessidade de escrever naquele momento, para não esquecer...Houve tempo que almejava escrever um livro.Imagine que pretensão!No entanto, minha tendência leitora se sobrepôs à de “escritora”, com o passar do tempo.
Lia tudo, de romance “xarope” _como Sabrina, Júlia, Bianca_ , fotonovelas, histórias em quadrinhos, aos clássicos;talvez por isso uma grande inclinação pela área de humanas ,pela escolha acertada ,diga-se de passagem, de ser professora de Língua Portuguesa e Literatura.Aliás, comecei a trilhar desde cedo por esse caminho;amava brincar de ser professora com minhas amigas ,ajudava-as em suas tarefas escolares e preparava outras atividades,confeccionava livros e cadernos para elas e tomava a lição;tinha até uma escolinha em minha casa...Nossa!
Minha voracidade pela leitura foi crescendo, porém nem sempre por aquela indicada pela escola que, muitas vezes, mecânica e sem sentido, era sugerida tão somente para ser cobrada em testes e provas de forma pouco atraente, pois a leitura para ser significativa deve estar associada à realidade e ao conhecimento de mundo do leitor.
Decidi-me, pois, tempos mais tarde, pelo curso de Letras devido à minha predileção pela Língua Portuguesa e Literatura, o que não deixou de ser um desafio difícil.Não bastava gostar de ler.Fazia-se necessário ir além, mergulhar num universo novo.Eu me entreguei de corpo e alma ao curso e fui me aprimorando , superando meus limites como leitora.Tive a oportunidade de ler e analisar mais profundamente alguns clássicos da literatura portuguesa e brasileira ,ampliando, destarte,meus conhecimentos e aguçando meu olhar para aspectos antes despercebidos durante o processo de leitura, que era feita apenas com olhar fruidor, posto que faltava-me embasamento teórico mais apurado para que me tornasse uma leitora mais atenta e perspicaz.
Assim, lançar-me à escrita desse memorial possibilitou o resgate da minha identidade leitora e oportunizou, através da evocação das minhas recordações ,registrar e re-fazer um percurso de minha vida como uma maneira de divisar outros finais para a história que está ,ainda, em seu pleno transcurso.Afinal, como enfatiza Magda Soares, “na lembrança, o passado se torna presente e se transfigura, contaminado pelo aqui e agora.”
Revivi momentos prazerosos_outros nem tanto_pelos quais transitei como leitora e percebo o quanto os ecos e as marcas leitoras daquele tempo ainda pairam pelo espaço.
Enfim, a paixão pela viagem que é a leitura me fascina , me emociona e me transforma como pessoa...

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